Frank Zappa: um músico definitivo, uma obra de reticências

By António Macedo

Se7e, 8 August 1979


«A seu respeito já tudo foi dito – ou quase. Conhecemos os seus tiques, as suas manias. Mais do que descrever, uma vez mais, o mito-Zappa, estamos interessados em falar-vos daquilo que foi um pouco esquecido: a música e as suas fontes. Na obra de Zappa, cada disco é uma sequència do anterior (a famosa continuidade conceptual) de mil e uma maneiras. Eis, portanto, a totalidade da obra de Zappa, desnudada não para destruir a lenda mas para a sua própria glorificação». A negro, uma abertura. No nùmero de Maio, da revista Rock & Folk, Francis Vincent pega na obra de Frank Zappa (24 álguns entre 1966 e 1979, sem contar com o último «Sheik Yerbouti») e despe a perante o olhar censurador do próprio Zappa: La Palisse diria que a música de Zappa não seria a música de Zappa se Zappa noo fosse aquilo que é Zappa.

(Nasceu há muitos anos, mais de 40, nos Estados Unidos. Quando surgiu em 1966, com «Freak Out», não foram poucos os que afirmaram que o homem era louco, que a mãe, por descuido, o teria deixado bater com a cabeça na banheira aos seis meses. Pouco a pouco foram-se retratando e muitos chegaram mesmo a ajoelhar-se perante o deus – ainda que louco. As respectivas bocas, entretanto, escancararam-se de espanto. Foi há coisa de mês e meio e assim continuam: parece certo, até porque Zappa se manteve calado e mudo como no ballet, que o música caiu de um segundo andar quando ainda não tinha completado o terceiro ano de vida).

Seria, portanto, multo louvável a intenção do critico se Zappa não fosse Zappa. Falar da sua música, das fontes da sua música é falar dele próprio do mito em que se transformou justamente por causa dos seus tiques, das suas manias e, sobretudo, por causa da sua – música. A obra de Zappa decorre da sua própria e controversa personalidade. Desde «Freak Out!» isso é notório a tal ponto que ainda hoje, muito dinheiro ganho e largos milhões de discos vendidos, Zappa mantém-se fiel a si próprio, coerente com a sua loucura, loucamente sadio, sadiamente louco, tudo em causa em todos os momentos («não existem ocasiões melhores ou piores para fazer perguntas, são todas igualmente óptimas»), dois pés metidos para fora, uma guitarra em punho, muitas pautas em branco e a certeza de que a sua música é, pelo menos, tão aceitável como comida salgada - só a consome quem gosta.

Relativamente a Zappa a situação é essa – não existem meios termos. Ou se gosta do homem ou não. De cabelo cortado à «punk» (a quem não poupa criticas) ou caindo-lhe pelos ombros à «hippie» (movimento que conheceu a acidez da sua palavra cantada) Zappa passou ao largo (ou talvez sobre) todos os movimentos mais ou mensos etiquetados da música popular. A tal ponto que ele é – um movimento da música popular. Louco ou não.

(Nota à Imprensa: o meu quarto filho se for rapaz chamar-se-á Burt Reynolds e se for rapariga Clint Eastwood. Assinado: Frank Zappa. Todos leram bem: os redactores dos diversos jornais e vocês próprios nesta ocasião, excelente aliás para fazer perguntas).

Louco ou não a verdade é que Frank Zappa é um movimento da música popular. Vinte e cinco álbuns gravados, rupturas mais ou menos ruidosas com todas as editoras, disputado por elas a peso de ouro, Frank Zappa desemboca neste quentíssimo Verão de 1979, com o duplo «Sheik Yerbouti». A tentação assaltou criticos e divulgadores em 24 outras ocasiões: este é o melhor de sempre.

Uma tal atitude jamais seria possivel se Zappa não fosse quem é. Dele espera-se sempre o melhor e jamais se lhe reconheceu o fracasso mesmo quando ele se tornou evidente – o que não aconteceu muitas vezes, valha a verdade. «Sheik Yerbouti» não se vai juntar às excepções por uma razão simples – está bem longe de ser um fracasso. Até á quinta ou sexta audição é mesmo o melhor de sempre. Depois disso a recordação é mais forte e a memória sensibilizase com a ambiência de «Freak Out» ou com a displicência de «Absolutely Free» (1966) com o sinfonismo de «Lumpy Gravy» (1967) ou com a ruptura de «Hot Rats» (1969), com a atracção do abismo em «Ruben & the Jets» (1967) ou com o tipicismo de «Uncle Meat» (1968) e, nesta década já, com as meias-águas de «Chunga's Revenge» (1970) ou com o segundo fôlego de «200 Motels» (1971), enfim com a fluência de «The Grand Wazoo» (1972) ou com a sinceridade de «Overnite Sensation» (1973), com o regresso em «Studio Tan» (1978) ou, por fim, com a afirmação de «Sleep Dirt» (1979) – mais do que o mais Zappa é um guitarrista. Um guitarrista que bebe em longínquas fontes a sua inspiração: Stockausen, Eric Satie, talvez John Cage. Um guitarrista que pisa aberto e dedilha com a palheta da sua própria alma, que esquece as fontes de inspiração e que se transforma numa corrente de preparados dos apreciadores. «Sheik Yerbouti» é isso e muito mais. Trata-se do último de Zappa, um álbum que começa onde acabou «Sleep Dirt» e que termina onde principiar o próximo. Mais reticências que se juntam numa obra onde elas não existem. Porque Zappa é definitivo.

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